Blog
Por Francisco Ferreira··14 min de leitura

Indicadores fundamentalistas da B3: guia com exemplos reais

Guia dos indicadores fundamentalistas da B3 com a fórmula, o erro nº 1 e o número real de ABEV3, WEGE3 e BBAS3, cada um com a fonte na CVM.

Em 01/09/2026, o mercado pagava 14,0 vezes o lucro anual da Ambev (ABEV3) e 31,5 vezes o da WEG (WEGE3), ambos calculados sobre as demonstrações arquivadas na CVM. Mais que o dobro de múltiplo para a mesma unidade de lucro. Esse par de números resume por que indicadores fundamentalistas existem: eles transformam balanços de centenas de páginas em razões comparáveis. E resume também o limite deles, porque nenhum dos dois múltiplos diz, sozinho, qual leitura fazer.

Este guia percorre os indicadores fundamentalistas usados na B3 com um compromisso que os guias genéricos não assumem: todo número aqui é de uma empresa real, com a data-base e o documento de origem declarados. Os exemplos vêm de três companhias de perfis opostos, a Ambev (bebidas), a WEG (bens de capital) e o Banco do Brasil (BBAS3), justamente para mostrar onde cada indicador funciona e onde ele quebra.

O que são indicadores fundamentalistas?

Indicadores fundamentalistas são razões matemáticas calculadas a partir das demonstrações financeiras oficiais de uma empresa (ITR, DFP) e do preço de mercado da ação, usadas para descrever valuation, rentabilidade, endividamento e distribuição de proventos de forma comparável entre companhias. Eles medem o que a empresa reportou no passado; não preveem preço nem retorno futuro.

A palavra "fundamentalista" vem de fundamento: o dado nasce no balanço, na DRE e nas notas explicativas que a companhia entrega à CVM, não no gráfico de cotação. Por isso a qualidade de um indicador depende inteiramente da qualidade da fonte. Um P/L calculado sobre lucro de release, ajustado a critério da empresa, e um P/L calculado sobre o lucro do ITR revisado por auditor podem contar histórias diferentes, como veremos com um caso real logo adiante.

A tabela-mestra: fórmula, exemplo real e o erro nº 1

A tabela abaixo condensa o guia inteiro. Cada linha traz a fórmula canônica, o valor real de uma das três empresas (posição em 01/09/2026, calculada sobre a DFP 2025 e o ITR mais recente entregues à CVM) e o erro de interpretação mais comum daquele indicador.

IndicadorFórmulaExemplo real (01/09/2026)O erro nº 1
P/LPreço ÷ LPA (12 meses)ABEV3: 14,0x · WEGE3: 31,5xNão declarar a janela do lucro (12m ou projetado); usar em empresa com prejuízo
P/VPPreço ÷ VPABBAS3: 0,62x · WEGE3: 10,4xTratar P/VP abaixo de 1 como conclusão pronta
EV/EBITDA(Valor de mercado + dívida líquida) ÷ EBITDA 12mABEV3: 7,1xEsquecer a dívida no EV; aplicar em banco
ROELucro líquido ÷ patrimônio líquidoWEGE3: 33,0% · BBAS3: 8,1%Ignorar que alavancagem infla ROE; usar PL final em vez do médio
ROICNOPAT ÷ capital investidoABEV3: 17,3%Usar lucro líquido no lugar do NOPAT
Margem líquidaLucro líquido ÷ receita líquidaABEV3: 19,0%Usar receita bruta no denominador
Dív. líquida/EBITDA(Dívida bruta − caixa) ÷ EBITDA 12mABEV3: −0,5xConfundir dívida bruta com líquida; EBITDA de 1 trimestre
Dividend yieldProventos por ação 12m ÷ preço atualABEV3: 9,2%Misturar janela trailing com projetada; esquecer o JCP
Piotroski F-Score9 critérios contábeis (0 a 9)ABEV3: 6/9 · WEGE3: 4/9Ler como nota de recomendação
Altman Z''-Score3,25 + 6,56·X1 + 3,26·X2 + 6,72·X3 + 1,05·X4ABEV3: 7,8 (zona segura)Aplicar em instituição financeira

Fontes: páginas de ABEV3, WEGE3 e BBAS3 na Ancorata, com indicadores derivados dos documentos na CVM: DFP 2025 da Ambev entregue em 12/02/2026 e ITR 2T26 em 30/07/2026; DFP 2025 da WEG em 25/02/2026 e ITR 2T26 em 22/07/2026. Cotações de 01/09/2026. As seções seguintes abrem cada bloco da tabela.

Múltiplos de preço: P/L, P/VP e EV/EBITDA

P/L é o preço da ação dividido pelo lucro por ação dos últimos 12 meses. A leitura direta: quantos reais o mercado paga hoje por cada real de lucro anual reportado. A Ambev negociava a R$ 15,03 com LPA de R$ 1,07, logo P/L de 14,0x. A WEG, a R$ 50,15 com LPA de R$ 1,59: P/L de 31,5x. O múltiplo maior registra que o mercado paga mais caro pelo lucro da WEG, empresa que cresceu receita a R$ 40,8 bilhões e lucro a R$ 6,8 bilhões na DFP 2025. Registra o preço relativo; a decisão sobre o que fazer com essa informação continua sendo sua, e depende de muito mais que uma razão.

Duas travas antes de usar qualquer P/L. Primeira: a janela. Lucro dos últimos 12 meses e lucro projetado geram múltiplos diferentes para a mesma empresa no mesmo dia; comparar um com o outro é erro de base. Segunda: o sinal. Empresa com prejuízo tem P/L negativo, e P/L negativo não informa nada; nesse caso o indicador simplesmente não se aplica.

Há ainda uma trava menos óbvia: qual "L" você está usando. No press-release do 1T26, a própria Ambev escreveu:

"O Lucro por Ação ('LPA') Ajustado foi R$ 0,24, com crescimento de 0,5%." (Ambev, press-release de resultados do 1T26, 05/05/2026, com link para o documento na CVM)

"LPA Ajustado" é métrica definida pela companhia no release, que não é peça auditada; o LPA de R$ 1,07 usado no P/L acima vem das demonstrações contábeis de 12 meses arquivadas na CVM. São conceitos e janelas distintos, e misturá-los muda o múltiplo. Quem quiser entender a hierarquia entre release, ITR e DFP encontra o mapa completo no guia de como ler os documentos de uma empresa na CVM.

P/VP é o preço da ação dividido pelo valor patrimonial por ação. O Banco do Brasil negociava a 0,62x o patrimônio contábil; a WEG, a 10,4x. Uma diferença de 17 vezes entre duas empresas lucrativas da mesma bolsa. O ponto pedagógico: P/VP abaixo de 1 descreve um preço menor que o patrimônio contábil, e só. Pode refletir expectativa de rentabilidade baixa, risco percebido, setor intensivo em capital, ou nada disso. Em banco, aliás, o P/VP é um dos múltiplos centrais da análise, porque o patrimônio líquido é a base regulatória do negócio; em empresa de tecnologia com poucos ativos físicos, o mesmo indicador diz pouco.

EV/EBITDA compara o valor total do negócio com a geração operacional. EV é o valor de mercado somado à dívida líquida. Aqui o exemplo da Ambev tem um detalhe raro: como o caixa da companhia supera a dívida bruta, a dívida líquida é negativa e o EV fica menor que o valor de mercado. O EV/EBITDA de 7,1x já embute esse caixa. Esquecer a dívida (ou o caixa) no numerador é o erro clássico que faz duas empresas idênticas na operação parecerem iguais quando uma deve 3 EBITDAs e a outra nada deve.

Rentabilidade: ROE, ROIC e a cascata de margens

ROE é o lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido: quanto a empresa gera de lucro para cada real que os acionistas mantêm nela. A WEG entregava ROE de 33,0%; o Banco do Brasil, de 8,1% (ambos em 01/09/2026, sobre as demonstrações mais recentes na CVM). Antes de comparar os dois, duas ressalvas de método. ROE sobe com alavancagem: uma empresa muito endividada pode exibir ROE alto com risco proporcional. E o denominador correto é o patrimônio líquido médio do período, não o do último dia; usar o PL final distorce o número em ano de recompra ou de aumento de capital.

O ROIC responde uma pergunta diferente: o retorno sobre todo o capital investido, próprio e de terceiros, usando o NOPAT (lucro operacional após impostos) no numerador. O ROIC da Ambev estava em 17,3%, ao lado de um ROE de 18,8%. Quando os dois caminham próximos, como aí, é sinal de que a alavancagem contribui pouco para o retorno; quando o ROE dispara muito acima do ROIC, a dívida está fazendo parte do trabalho.

As margens se leem em cascata, e a DFP 2025 da Ambev ilustra a cascata inteira: margem bruta de 51,9%, margem EBITDA de 34,8%, margem líquida de 19,0%, sobre receita líquida de R$ 88,2 bilhões. Cada degrau conta onde o dinheiro fica pelo caminho: custo do produto, despesas operacionais, resultado financeiro e imposto. O erro recorrente é de denominador: margem se calcula sobre receita líquida, nunca sobre a bruta, e margem EBIT não é margem EBITDA (a segunda soma de volta depreciação e amortização).

Endividamento: quando a dívida líquida/EBITDA sai negativa

Dívida líquida/EBITDA mede quantos anos de geração operacional a empresa levaria para quitar a dívida descontado o caixa. O erro nº 1 absoluto de toda a análise fundamentalista mora aqui: usar a dívida bruta no lugar da líquida. A conta certa subtrai caixa e equivalentes da dívida bruta antes de dividir pelo EBITDA de 12 meses (nunca o de um trimestre isolado).

Os dois exemplos reais deste guia mostram o caso que confunde iniciantes: Ambev a −0,5x e WEG a −0,42x. Indicador negativo aqui não é alarme, é o oposto: significa caixa maior que a dívida bruta, o chamado caixa líquido. A Ambev fechou a posição com dívida bruta equivalente a apenas 0,03x o patrimônio. Quem olhasse só "dívida bruta" veria bilhões em obrigações e perderia a informação de que o caixa cobre tudo com sobra.

O teste de sanidade antes de citar qualquer alavancagem: o número bate com a nota explicativa de empréstimos e financiamentos do ITR? A nota traz a composição por moeda, prazo e custo, que é onde a história de verdade está. O passo a passo de abrir essa nota está no guia de como ler o resultado trimestral de uma empresa da B3.

Proventos: dividend yield e payout, com as janelas certas

Dividend yield é a soma dos proventos por ação dos últimos 12 meses dividida pelo preço atual da ação. A Ambev distribuiu R$ 1,39 por ação em 12 meses (dividendos e JCP somados), o que sobre a cotação de R$ 15,03 dá yield de 9,2%. Três declarações acompanham qualquer yield sério: a janela (12 meses móveis, aqui), se inclui JCP (inclui) e a data do preço (01/09/2026). Rentabilidade passada não é garantia de resultado futuro, e yield calculado sobre o preço de hoje não é a taxa que quem comprou no passado recebe.

O payout mede a fatia do lucro distribuída. E o caso da Ambev traz um alerta de leitura: os proventos por ação de 12 meses (R$ 1,39) superaram o LPA do mesmo período (R$ 1,07). Distribuição acima do lucro corrente acontece, em geral via reservas ou lucros de exercícios anteriores, mas payout acima de 100% não se sustenta indefinidamente e é convite para abrir a nota de patrimônio líquido da DFP e a proposta de destinação do resultado, não para concluir qualquer coisa a partir do percentual solto.

Sobre imposto, atenção à data: desde 01/01/2026 (Lei 15.270/2025), dividendos pagos por uma mesma companhia a uma mesma pessoa física sofrem retenção de 10% na fonte na parcela que exceder R$ 50 mil por mês; lucros apurados até 2025 com distribuição aprovada até 31/12/2025 seguiram isentos. O JCP, que já era tributado, passou a ter IRRF de 17,5% (LC 224/2025). Texto que ainda afirma "dividendo é isento" sem citar ano está desatualizado.

Piotroski e Altman: por que a WEG tira 4 de 9 (e isso não encerra nada)

Scores compactam vários indicadores num número só, e por isso mesmo são os mais mal lidos. O Piotroski F-Score soma 9 testes contábeis binários de saúde fundamentalista. Em 01/09/2026, a Ambev marcava 6 de 9 e a WEG, empresa com ROE de 33% e margem líquida de 16,6%, marcava 4 de 9. Estranho? Não: os critérios de Piotroski premiam melhora recente (lucro subindo, margem subindo, alavancagem caindo), então uma companhia excelente e estável pode pontuar baixo num ano de acomodação. O score mede trajetória contábil, não qualidade absoluta, e não é nota de recomendação.

O Altman Z''-Score, na variante para mercados emergentes, sinaliza risco relativo de estresse financeiro: acima de 2,6 é zona segura, entre 1,1 e 2,6 é zona cinzenta, abaixo de 1,1 é zona de aflição. A Ambev marcava 7,8 e a WEG 7,08, ambas na faixa segura. Duas restrições inegociáveis: o Altman não se aplica a instituição financeira, e "zona de aflição" sinaliza risco relativo, nunca "vai falir". Score é ferramenta de triagem que aponta onde investigar primeiro; a investigação continua sendo no documento.

Banco não tem EBITDA: os indicadores que mudam por setor

Aplique a tabela-mestra ao Banco do Brasil e metade dela evapora. Para um banco, depósito é matéria-prima e juro é atividade-fim, então "dívida" não é alavancagem e EBITDA não existe como conceito útil. A página da BBAS3 na Ancorata omite deliberadamente EBITDA, dívida líquida e os dois scores para instituições financeiras, em vez de exibir um número sem sentido. O que sobra, e o que entra no lugar:

  • Continuam valendo: P/L (7,7x na BBAS3), P/VP (0,62x, aqui um múltiplo central) e ROE (8,1%), todos em 01/09/2026.
  • Entram no lugar: índice de Basileia (capital regulatório mínimo de 10,5%), margem financeira, índice de eficiência, inadimplência da carteira e provisões (PDD).
  • Mesma lógica em outros setores: seguradora se lê por sinistralidade e índice combinado; FII não tem lucro nem ROE, se lê por P/VP, dividend yield e vacância, e reporta por informe mensal, não por ITR.

Regra de bolso que evita a maioria dos vexames: antes de citar um indicador, pergunte se o modelo de negócio da empresa produz aquele número. Comparar múltiplo entre setores diferentes como se fossem equivalentes é o segundo erro mais caro da análise fundamentalista, atrás apenas de confundir dívida bruta com líquida.

Como rastrear cada indicador até o documento

Todo número deste guia percorre o mesmo caminho de volta: indicador → demonstração → nota explicativa → documento na CVM. Você consegue refazer esse caminho na mão pela Consulta Externa da CVM, e o guia de documentos da CVM ensina exatamente isso. O custo é tempo: são quatro demonstrações e dezenas de notas por trimestre, por empresa.

A alternativa é deixar a trilha pronta. Na Ancorata, a página de qualquer companhia da B3 exibe os indicadores desta tabela já calculados e acompanhados do documento que os origina, com a data de entrega à CVM visível. Abrir a ABEV3, a WEGE3 ou o ticker que você acompanha não custa nada nem exige cadastro para os dados públicos, e cada definição desta página tem versão expandida no glossário de indicadores. Quando a dúvida for "esse P/L está calculado sobre qual lucro?", a resposta está a um clique do próprio número. Para comparar esse jeito de trabalhar com os portais tradicionais, o comparativo de ferramentas de análise fundamentalista coloca as opções lado a lado.

Perguntas frequentes

Quais são os principais indicadores fundamentalistas?

Os mais usados na B3 se agrupam em quatro famílias: múltiplos de preço (P/L, P/VP, EV/EBITDA), rentabilidade (ROE, ROIC, margens), endividamento (dívida líquida/EBITDA) e proventos (dividend yield, payout). Scores como Piotroski e Altman resumem vários deles num número de triagem. Nenhum indicador isolado sustenta uma conclusão.

Qual a diferença entre P/L e P/VP?

O P/L divide o preço da ação pelo lucro por ação de 12 meses; o P/VP divide o preço pelo patrimônio líquido por ação. O primeiro compara preço com resultado gerado; o segundo, preço com capital contábil acumulado. Em 01/09/2026, a WEG negociava a P/L de 31,5x e P/VP de 10,4x, enquanto o Banco do Brasil marcava 7,7x e 0,62x, segundo as demonstrações na CVM.

P/VP menor que 1 significa que a ação está barata?

Não. P/VP abaixo de 1 registra apenas que o preço de mercado está menor que o patrimônio contábil por ação. As causas possíveis vão de expectativa de rentabilidade baixa a características do setor. O indicador descreve uma relação de preço; ele não emite veredito nem recomendação.

Dívida líquida/EBITDA negativa é ruim?

Não. Valor negativo significa que o caixa supera a dívida bruta (caixa líquido). Em 01/09/2026, Ambev (−0,5x) e WEG (−0,42x) estavam nessa situação, conforme as demonstrações entregues à CVM. O alerta de leitura é outro: o cálculo exige dívida líquida (bruta menos caixa) e EBITDA de 12 meses.

Indicador fundamentalista serve para prever o preço da ação?

Não. Indicadores fundamentalistas descrevem o que a empresa reportou nas demonstrações passadas e o preço relativo de hoje. Eles não projetam cotação nem retorno, e score de qualidade como Piotroski ou Altman também não. O uso correto é descritivo e comparativo, sempre com a janela e a fonte declaradas.

Continue lendo