Em 26/09/2026, a Petrobras (PETR4) tinha dívida líquida equivalente a 1,14 vez o EBITDA dos últimos 12 meses, calculada sobre as demonstrações arquivadas na CVM. No mesmo dia, a cobertura de juros da companhia estava em 460,9 vezes. São dois números sobre a mesma dívida, e nenhum deles é o "51% de alavancagem" que aparece nas manchetes de resultado. A confusão entre esses três valores é o motivo de este guia existir.
Aqui a Petrobras entra como caso real para mostrar três coisas que os guias genéricos sobre o indicador não mostram: como a dívida líquida/EBITDA é montada, onde ela engana, e como refazer a conta até o documento que a origina. Todo número tem a data-base e a fonte declaradas, e em nenhum momento isto é conselho de compra ou venda.
De onde vem o 1,14x da Petrobras
O número não sai de uma tabela pronta: ele resume duas linhas do balanço e uma da demonstração de resultado. A dívida líquida é a soma dos empréstimos e financiamentos da companhia menos o caixa e as aplicações financeiras. O EBITDA é o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, medido em 12 meses. Em 26/09/2026, a razão entre os dois dava 1,14x na página da PETR4, com base nas demonstrações mais recentes entregues à CVM (último documento em 19/09/2026), e vinha caindo: 0,15x a menos que na leitura anterior.
A leitura de bolso desse 1,14x: se a geração de caixa operacional se repetisse e fosse inteira para o credor, a Petrobras quitaria a dívida líquida em pouco mais de um ano. É um patamar baixo para uma petroleira, setor em que projetos de exploração custam bilhões e a dívida faz parte da estrutura. O contraponto está no guia de indicadores fundamentalistas da B3, onde Ambev e WEG aparecem com dívida líquida/EBITDA negativa (caixa maior que a dívida). A Petrobras mostra o outro lado da régua: dívida positiva, mas coberta com folga pela operação.
Dívida líquida, não bruta: o erro que troca a conta inteira
O erro número um de toda a análise de endividamento é usar a dívida bruta no lugar da líquida. A dívida bruta é o total de empréstimos e financiamentos. A dívida líquida desconta desse total o caixa e as aplicações que a empresa poderia usar para pagar amanhã. Numa companhia com caixa relevante, os dois números são muito diferentes, e a conta que ignora o caixa infla a alavancagem artificialmente.
Como calcular a dívida líquida/EBITDA em 3 passos
- Ache a dívida líquida: some empréstimos e financiamentos (a dívida bruta) e subtraia o caixa e as aplicações financeiras.
- Pegue o EBITDA de 12 meses: o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, acumulado em quatro trimestres (nunca um trimestre só).
- Divida um pelo outro: dívida líquida ÷ EBITDA de 12 meses. O resultado, em "vezes", é o indicador.
A própria Petrobras deixa esse contraste visível quando você olha mais de um indicador de endividamento ao mesmo tempo. Na mesma data-base de 26/09/2026, a página da PETR4 trazia:
| Indicador de endividamento | Valor (26/09/2026) | O que ele mede |
|---|---|---|
| Dívida líquida/EBITDA | 1,14x | Dívida já descontada de caixa, sobre a geração operacional de 12 meses |
| Dívida líquida/EBIT | 1,68x | Mesma dívida líquida, mas sobre o lucro operacional após depreciação |
| Dívida bruta/patrimônio | 0,76x | Dívida total (sem descontar caixa) sobre o patrimônio líquido |
| Cobertura de juros | 460,9x | Quantas vezes o resultado operacional cobre a despesa de juros |
Fonte: página da PETR4 na Ancorata, indicadores derivados das demonstrações (DFP/ITR) arquivadas na CVM, posição em 26/09/2026. Repare que a dívida líquida/EBITDA (1,14x) e a dívida bruta/patrimônio (0,76x) usam conceitos de dívida diferentes e denominadores diferentes. Trocar um pelo outro, ou pior, jogar a dívida bruta na fórmula do EBITDA, produz um número que não descreve mais a mesma empresa. A cobertura de juros de 460,9x completa o quadro: mesmo com dívida positiva, o resultado operacional cobre a conta de juros centenas de vezes.
Qual EBITDA entra na conta? O que a Petrobras chama de "Ajustado"
O denominador esconde uma armadilha maior que o numerador. Existe mais de um EBITDA, e a empresa costuma destacar o seu. No Relatório de Desempenho do 1T26, a Petrobras reportou o EBITDA da operação numa tabela própria:
"EBITDA Ajustado 59.643 59.923 61.084 (0,5) (2,4) Outros eventos exclusivos (2.027) 934 (1.197) − 69,3 EBITDA Ajustado sem eventos…" (Petrobras, Relatório de Desempenho do 1T26, 13/05/2026, pág. 7, com link para o documento na CVM)
É a tabela crua do release, com valores em milhões de reais e as variações entre parênteses. O "EBITDA Ajustado" de R$ 59.643 milhões no 1T26 é a métrica da própria companhia, que remove itens que ela classifica como não recorrentes ("eventos exclusivos"). Na página de resultado do trimestre, o EBITDA que sai das demonstrações contábeis do 1T26 aparecia em R$ 62,9 bilhões, um número diferente para o mesmo período, porque parte de uma base contábil distinta. O release não é peça auditada da mesma forma que o ITR, e o EBITDA ajustado do release não é o EBITDA das demonstrações. Misturar os dois muda a razão dívida líquida/EBITDA.
Dois cuidados fecham esta seção. Primeiro: a conta usa EBITDA de 12 meses, não o de um trimestre. Os R$ 59,6 bilhões acima são de um único trimestre; servem para ilustrar qual EBITDA a empresa destaca, não para dividir a dívida. Segundo: em petroleiras e outras companhias com muitos arrendamentos, a norma contábil IFRS 16 empurra parte dos aluguéis para dentro da dívida e do EBITDA ao mesmo tempo, então o mesmo indicador pode aparecer maior ou menor conforme a base "com" ou "sem" arrendamento. A página da Ancorata declara isso de forma explícita: os indicadores partem da base contábil arquivada na CVM e podem diferir do lucro "ajustado" e das bases pré e pós-IFRS 16 que a empresa e a imprensa costumam destacar.
"Alavancagem" pode significar duas coisas diferentes
Quando uma manchete diz que a "alavancagem líquida" da Petrobras é de 51%, ela não está falando de dívida líquida/EBITDA. São dois indicadores de nomes parecidos e contas distintas. A dívida líquida/EBITDA (1,14x aqui) compara a dívida com a geração de caixa. A alavancagem em percentual compara a dívida líquida com o capital total da empresa (dívida líquida somada ao patrimônio), e sai em porcentagem, não em "vezes".
Os dois respondem perguntas diferentes: um mede quantos anos de operação pagariam a dívida, o outro mede que fatia do capital da empresa é dívida. Nenhum é "o certo"; errado é comparar o 1,14x de uma companhia com o 51% de outra como se fossem a mesma métrica. Antes de citar qualquer "alavancagem", vale checar se o número está em vezes (é razão sobre EBITDA) ou em porcentagem (é razão sobre o capital).
O que 1,14x diz, e o que não diz
O mercado costuma tratar dívida líquida/EBITDA até cerca de 2x como confortável, entre 3x e 4x como alto, e acima disso como sinal de atenção. É uma heurística de leitura, não uma regra contábil e muito menos uma recomendação. O patamar "saudável" muda com o setor: uma empresa de energia com contratos longos suporta mais dívida que uma varejista com receita cíclica. Por isso o 1,14x da Petrobras só ganha sentido comparado a outras petroleiras e ao histórico da própria companhia, nunca a uma varejista ou a um banco.
O que o indicador não faz: ele não projeta a cotação, não diz se a ação está barata, e não é gatilho de compra. Uma dívida líquida/EBITDA baixa convive com riscos que o número não captura, câmbio da dívida, preço do petróleo, decisão de investimento. O indicador é um termômetro de uma dimensão só, o endividamento em relação ao caixa gerado, e um termômetro sozinho não fecha diagnóstico. A leitura correta é sempre: qual a dívida, sobre qual EBITDA, em qual data, e comparada a quê.
- Usar dívida bruta onde a fórmula pede dívida líquida (esquecer de descontar o caixa).
- Dividir a dívida pelo EBITDA de um trimestre em vez do EBITDA de 12 meses.
- Misturar o EBITDA "ajustado" do release com a dívida das demonstrações, ou comparar bases com e sem IFRS 16.
Banco e FII não entram nessa conta
A dívida líquida/EBITDA não se aplica a todo mundo. Num banco, dívida não é alavancagem: depósito e captação são a matéria-prima do negócio, e o conceito de EBITDA nem existe de forma útil. Para instituições financeiras, o endividamento se lê pelo índice de Basileia (capital regulatório mínimo de 10,5%), pela inadimplência da carteira e pelas provisões, não por dívida líquida/EBITDA. Fundos imobiliários também ficam de fora: um FII não tem EBITDA nem lucro contábil no sentido de uma empresa, e sua saúde se lê por vacância, indexador e qualidade do devedor, tema do guia sobre como analisar um fundo imobiliário. Antes de aplicar o indicador, a pergunta é se o modelo de negócio da empresa produz aquele número.
Como refazer a conta na fonte
Todo o 1,14x pode ser reconstruído à mão. O caminho: abrir o ITR mais recente da Petrobras na Consulta Externa da CVM, ir à nota explicativa de empréstimos e financiamentos (a dívida bruta, com moeda, prazo e custo), subtrair caixa e equivalentes do balanço, e dividir o resultado pelo EBITDA de 12 meses tirado da demonstração de resultado. O passo a passo de abrir essas notas está no guia de como ler o resultado trimestral de uma empresa da B3, e o mapa dos documentos (ITR, DFP, release) está em como ler os documentos da CVM.
A alternativa é deixar a trilha pronta. Na página da PETR4, o 1,14x aparece ao lado da data-base e do documento que o gerou, sem cadastro para o dado público. E quando a dúvida é "esse EBITDA é o ajustado ou o das demonstrações?", o assistente da Ancorata devolve a resposta grudada no parágrafo do release, com o link para a CVM, em vez de um número solto. É a diferença entre ler o indicador e conseguir provar de onde ele veio.
Perguntas frequentes
01Qual é a dívida líquida/EBITDA da Petrobras?
Em 26/09/2026, a dívida líquida/EBITDA da Petrobras (PETR4) estava em 1,14x, calculada sobre as demonstrações (DFP/ITR) arquivadas na CVM, conforme a página da empresa na Ancorata. O número varia a cada trimestre, quando saem novos resultados, e depende de qual EBITDA se usa (contábil ou ajustado).
02Como se calcula a dívida líquida/EBITDA?
Divide-se a dívida líquida (dívida bruta menos caixa e aplicações financeiras) pelo EBITDA dos últimos 12 meses. O resultado sai em vezes e indica quantos anos de geração de caixa operacional pagariam a dívida líquida. O erro mais comum é usar a dívida bruta, sem descontar o caixa.
03Dívida líquida/EBITDA de 1x é boa ou ruim?
Não existe valor bom ou ruim isolado. O mercado costuma tratar até cerca de 2x como confortável e acima de 3x a 4x como alto, mas o patamar aceitável muda por setor e a métrica não é recomendação de compra. Ela descreve o endividamento em relação ao caixa gerado, e precisa ser comparada a pares do mesmo setor e ao histórico da empresa.
04Por que a dívida líquida/EBITDA da Petrobras difere entre fontes?
Porque cada fonte pode usar um EBITDA diferente (o ajustado do release ou o das demonstrações), moeda diferente (real ou dólar) e base diferente de IFRS 16 (com ou sem arrendamentos). A Ancorata usa a base contábil arquivada na CVM; a companhia e a imprensa costumam destacar o número ajustado, o que explica a divergência.
05Dívida líquida/EBITDA vale para banco?
Não. Em bancos, dívida é a matéria-prima do negócio e não há EBITDA no sentido usual. O endividamento de instituições financeiras se lê pelo índice de Basileia, inadimplência e provisões. O indicador também não se aplica a fundos imobiliários, que se avaliam por vacância, dividend yield e P/VP.